O desafio de aproximar cada vez mais às pessoas do teatro

O desafio de aproximar cada vez mais às pessoas do teatro

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Convidado em meados de março deste ano para assumir a presidência da Fundação Theatro São Pedro, em razão do falecimento, em fevereiro deste ano, de sua então presidente, Eva Sopher, o jornalista, professor universitário dos cursos de Comunicação e Letras, da PUCRS, pesquisador e ex-vereador Antônio Hohlfeldt, tomou posse no dia 27 do mesmo mês.

Conhecendo a casa como a palma da sua mão, bem como boa parte da equipe que responde pelo local, no mesmo instante começou a trabalhar. “Aceitei o convite porquê de um lado havia um compromisso moral meu com a Eva, e de outro com a cidade de Porto Alegre. Afinal, acompanhei todo o processo do Theatro São Pedro, desde o seu início.” Conforme destacou Hohlfeldt, a presidência do Theatro é um cargo eminentemente político, de articulações e de representação. “Por não ser uma função burocrática, foi possível eu assumir o posto e seguir como professor universitário na PUCRS.”

Interior do Theatro São Pedro – Porto Alegre – RS

Lá em 1972, ele já tinha sido indicado para dirigir o São Pedro, ficando à frente da casa por cerca de seis meses. Depois disso, o Theatro foi fechado para reformas. “Acabou por ser praticamente uma reconstrução, pois se trabalhou em todos os alicerces da obra, e, por isso, está de pé até hoje, sem precisar de grandes intervenções.”

 Hohlfeldt sempre teve uma excelente relação com Eva Sopher, inclusive sendo seu secretário na época da Pro Arte – entidade que trazia recitais, consertos e grupos musicais para Porto Alegre -, além de ter escrito o livro Doce Fera, que é a biografia dela. “Tenho uma relação com o Theatro que não é de estar chegando num espaço novo. Porém, agora tenho uma enorme responsabilidade de continuar tocando todo esse complexo.”

Com relação a estar à frente da presidência da casa, ele trabalha com o prazo de 31 de dezembro de 2018, data em que se encerra o atual governo de José Ivo Sartori. “Considero muito simbólico este período, de março a dezembro, pois totalizarei nove meses ocupando o cargo, ou seja, o tempo de uma gestação.” Hohlfeldt evidenciou que seu desafio nessa temporada é continuar o trabalho que Eva Sopher vinha fazendo.

Cultura no Brasil – De acordo com Hohlfeldt, do ponto de vista das instituições que apoiam cultura vivemos uma crise muito forte, não somente financeira e sim de falta de concepção e de valorização. De forma geral, ele disse não ver uma grande preocupação dos governos estaduais e federal com a área cultural. “Pós 1964 e 1968, apesar da ditadura, o governo institucionalizou uma série de instâncias que ajudavam na produção cultural. Hoje, isso está praticamente perdido, com raríssimas exceções.”

“Descobri fotos de 2003, na tarde em que Eva Sopher fez a primeira pá de terra para o início da obra do Multiplaco, ao lado da atriz Tônia Carrero. E em homenagem ao trabalho que prestou por uma vida toda à esta instituição cultural, já foi anunciado pelo governador do RS, José Ivo Sartori, em 2018, que o Multipalco terá o nome de Eva Sopher. Assim, a intenção seria chamar Complexo Multipalco Theatro São Pedro Eva Sopher.”

Atualmente, comentou o presidente, o produtor cultural depende de si próprio, ou seja, de investimentos e apoios privados. “O que tem segurado esse processo todo é a vigência da Lei Rouanet, que havia sido um pouco desvirtuada, mas com o novo ministro da Cultura, o jornalista Sérgio Sá Leitão, a credibilidade da iniciativa está sendo recuperada bem rapidamente.” Hohlfeldt ressaltou que muitos dos projetos que acabam recebendo a Lei Rouanet são espetáculos que evidentemente não precisariam desse apoio da renúncia fiscal. “Isso, pelo fato de serem absolutamente autossuficientes, pois, nesses casos, são atores, atrizes ou cantores bem conhecidos e todos querem assistir e pagariam à bilheteria.”

Porém, salientou Hohlfeldt, tem um outro lado, que acredita ser bem mais sério, que é o nosso déficit de educação, fazendo com que a gente, ao natural, perca público. No Brasil, por exemplo, muitos que têm Netflix e ou internet em casa, deixam de ir ao teatro, o que não ocorre na Europa, onde existe internet gratuita em praticamente todos os lugares. “No meu ponto de vista, isso também ocorre em nosso País porque a escola está falhando numa formação cultural e artística para os alunos.” E, de acordo com ele, não se tendo hábito desde criança de ir ao teatro ou a concertos, não se vai quando adulto, pois não se adquiriu este costume. Hoje, um ingresso de teatro está praticamente o mesmo valor de um bilhete de cinema. “Logo, genericamente falando, o que mais me preocupa é a carência de uma formação para à cultura, e isso teria que se dar na escola.”

Theatro São Pedro

É um teatro com características internacionais, pois sempre foi cenário de grandes espetáculos, não impedindo à realização de apresentações mais populares, além de peças teatrais consagradas. A casa também é um dos palcos do conhecido “Porto Alegre em Cena”, que ocorre sempre no segundo semestre e que, este ano, usará bastante o espaço do Multipalco e do próprio Theatro São Pedro, inclusive para peças experimentais, com reprise de espetáculos, fazendo com que muitas pessoas possam assistir.

Multipalco

Lançado em 2003, a obra ficou praticamente pronta em 2017.

O Multipalco possui um complexo de salas: o teatro oficina, com cerca de 300 lugares; o grande auditório, em torno de 640 lugares; a concha acústica, na área externa, e que já está sendo utilizada. Além das salas de ensaios e de cursos, para oficinas de artes plásticas, danças e outras atividades, e locais para pesquisas e trabalhos diversos. Conta ainda com o ambiente do estacionamento, que já vem sendo utilizado, bem como um bistrô, o Duos. Assim, toda essa estrutura coloca o Multipalco como mais do que um espaço só para espetáculos. E integrado com o Theatro realmente fica completo.

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